A Aporofobia à Luz da Psicanálise
- Lenivaldo Ferreira
- 3 de jun. de 2025
- 2 min de leitura

Por Lenivaldo Ferreira, Psicanalista Clínico
Se Freud vivesse hoje, talvez não tivesse um divã... teria um banco de praça. Ali mesmo, onde a humanidade mais escancara suas neuroses sociais. Talvez ele sentasse ao lado de um homem em situação de rua e dissesse: “Conte-me mais sobre o que a cidade diz de você apenas por estar aí.”
Porque se há um sintoma moderno do adoecimento coletivo, este sintoma se chama aporofobia — o medo, o desprezo e a repulsa aos pobres. E isso, caro leitor, não é apenas sociologia, política ou economia: é pulsão, é recalque, é estrutura psíquica em operação.
O que nos leva a odiar os pobres?
A aporofobia não é apenas o medo do outro, mas o medo de ser o outro. O sujeito moderno, tão ocupado em construir sua identidade baseada no consumo e na aparência, não suporta se ver confrontado com o que ele reprimiu: a falta.
A presença de alguém em miséria extrema não apenas incomoda — ela denuncia, ativa o que foi enterrado no inconsciente: a fragilidade, a impotência, o vazio que tentamos cobrir com o ego inflado.
Freud dizia que o eu não é senhor em sua própria casa. Pois bem, a aporofobia revela que também não somos senhores em nossa própria sociedade. O pobre se torna o espelho invertido do nosso ideal do eu. É aquilo que não queremos ser — e por isso, rejeitamos.
Recalque social e desejo de dominação
A estrutura aporofóbica opera como um mecanismo de defesa social. O recalque da culpa (por ter mais), da impotência (por não conseguir mudar o mundo), e do medo (de cair para baixo) gera uma agressividade silenciosa. E essa agressividade é projetada no outro, no mais vulnerável.
Como psicanalista, posso afirmar: não odiamos os pobres porque eles são pobres. Odiamos porque eles nos lembram do nosso desamparo original. E não há nada mais ameaçador para o narcisismo humano do que admitir que, no fundo, todos somos sujeitos faltantes.
A clínica do social
Se a psicanálise busca escutar o sujeito para além do sintoma, então precisamos escutar o grito social. A miséria não é apenas um dado externo: ela ecoa no psiquismo coletivo, molda crenças, relações e até políticas públicas.
Nosso papel como terapeutas não é apenas acolher o sofrimento de quem pode pagar, mas entender como o sofrimento é produzido, reproduzido e naturalizado no tecido social. A aporofobia precisa ser interpretada como um sintoma coletivo de uma sociedade que reprime a compaixão e sublima a indiferença.
Se Freud visse...
Se Freud visse a maneira como tratamos os mais vulneráveis, talvez não ficasse surpreso. Mas certamente escreveria sobre isso. Diria que o homem civilizado continua tão selvagem quanto antes — apenas aprendeu a racionalizar seus impulsos com discursos sofisticados.
A aporofobia, portanto, é uma neurose cultural. Um recalque de classe. Uma fobia do desamparo. E enquanto não trouxermos isso à luz da consciência — individual e coletiva — continuaremos adoecendo como sociedade.


Excelente reflexão.. De todas as Fobias atualmente existentes, esta, sem dúvida, precisa de um “olhar” profundo e curioso.. Muito há em obscuro na repulsa à condição da pobreza .. Uma aversão, ao simples imaginar um dia talvez estar numa situação tal de absoluta falta, desde o “básico” para a sua sobrevivência no mundo.. ; e a forma de se distanciar dessa realidade cruel e incapacitante, é a negação, a repulsa, a invisibilidade destes.. Sem saber que de nada conseguiremos fugir.. Tudo uma hora ou outra, nos chega e se apresenta, novamente, de maneiras diferentes, para que possamos olhar despidos, enfrentar o caos pessoalmente, sem subterfúgios, e ressignificar os sentimentos..